Raul ToméSociedade

Somos abrigos

Era uma manhã de inverno como qualquer outra. O frio gelava os ossos das massas que se arrastam para mais um dia de emprego, para mais um dia de venda de tempo, de corpos e vontades. Era mais um dia em que se troca o que se é pelo que se quer.

De cabeça baixa, de olhar pregado nas pedras gastas que me serviam de chão vi um homem de barba comprida e grisalha que ornamentava uma pele escura já queimada pelo sol e pelo fumo distraído dos cigarros consumidos e gastos pelo tempo.

O olhar era triste e espreitava-me tímido debaixo de um cobertor grosso, sujo e rasgado. À sua volta o vazio. Sem papel para escrever sonhos feitos de desilusão, sem pão para comer nem amor para fazer a digestão.

Aquele homem sem-abrigo, passou a ocupar e a habitar a minha mente devoluta. Ocupou todas as divisões vazias e empoeiradas que abandonavam os meus dias.

Quando regressava do trabalho, decidi passar pela mesma rua. Precisava voltar a vê-lo, desesperadamente. Levei-lhe um abraço na merenda, aquecido por um olhar de compaixão. Quando entrei dentro da sua tenda de cartão, segurou na minha mão, pediu-me que não partisse e foi então que lhe disse: “Sai debaixo deste vão de escada, vem para longe daqui, percorre comigo esta estrada porque não é este o teu fim, deixa para trás esta ponte e vem, quero ser água na tua fonte”.

Olhou para mim a chorar, e eu, surpresa e sem vacilar estendi-lhe a mão devagar. Mas o homem sem esperança, que só conhece tempestades que chegam sem bonança, caiu no chão do luar, não se queria desplantar.

Mostrou-me as esmolas recebidas, os trapos que lhe deram, as noites mal dormidas e o mal que lhe fizeram.

De mão estendida e firme ajudei a levantar aqueles olhos cheios de mar. Segurou firme a minha mão, pele gelada queimada por pele quente, e num impulso enérgico e decido precipitou-se para mim. Voltou a encontrar vontade de sair do fim.

Raul Tomé

Raul Tomé

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.
Tem ainda formação em diversas áreas, entre as quais a Formação de Formadores, Gestão de Tempo, Gestão de Conflitos, Liderança de Equipas e Coaching.
Lançou em 2019 o seu primeiro livro a solo intitulado "Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho - Dinâmicas de Inclusão e Exclusão".
É criador da página Ipsis Verbis, através da qual realiza resenhas de obras literárias e a divulga citações de relevo, quer de autores nacionais quer internacionais, independentemente da sua dimensão no mundo literário.
É o fundador da página "Balthasar Sete-Sóis", onde partilha os seus escritos e também criador da rubrica "Passa-Palavra", inserida no programa "Amantes da Poesia" da Rádio PopularFm, onde colabora desde 2018.
Colaborou também em diversas colectâneas e antologias realizadas por diversas editoras nacionais.
Actualmente é coordenador literário na In-Finita, sendo responsável pela organização e revisão de uma colecção literária à qual deu o nome de "Ipsis Verbis".

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