AutoresEntrevistas de BastidoresRaul Tomé

Entrevista a Raul Tomé, Sociólogo e Autor

O Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.

É ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.

Tem ainda formação em diversas áreas, entre as quais a Formação de Formadores, Gestão de Tempo, Gestão de Conflitos, Liderança de Equipas e Coaching.

Lançou em 2019 o seu primeiro livro a solo intitulado “Deficiência, Nanismo e Mercado de Trabalho – Dinâmicas de Inclusão e Exclusão”.

É criador da página Ipsis Verbis, através da qual realiza resenhas de obras literárias e a divulga citações de relevo, quer de autores nacionais quer internacionais, independentemente da sua dimensão no mundo literário.

É o fundador da página “Balthasar Sete-Sóis”, onde partilha os seus escritos e também criador da rubrica “Passa-Palavra”, inserida no programa “Amantes da Poesia” da Rádio PopularFm, onde colabora desde 2018.

Colaborou também em diversas colectâneas e antologias realizadas por diversas editoras nacionais.

FENIKS TODAY: Olá Raul, obrigada por teres acedido ao convite para escreveres para a Mundo Magazine e gostávamos de saber mais sobre ti e sobre o teu percurso. Assim, a primeira pergunta que vamos fazer é: quem é o Raul Tomé?

Raul: Bom, antes de mais, aproveito para agradecer e dizer, desde já, que é uma honra participar num projeto tão importante e empolgante como o da FENIKS TODAY.

Quanto à tua pergunta, julgo que será por ventura a mais difícil de responder no decorrer desta entrevista. Não creio que consiga responder a algo tão simples e ao mesmo tempo tão complexo, mas julgo que os leitores poderão compreender melhor quem sou se visitarem e acompanharem os meus singelos escritos.

FENIKS TODAY: És Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e investigador nestas áreas. A nossa pergunta para ti é: como vai o mundo do trabalho em Portugal e como vão as Relações Laborais?

Raul: A realidade não é famosa e o futuro não é promissor.
Vivemos tempos, avassaladoramente, imediatos, não sobra tempo para investir nas pessoas, mas espera-se que estas tenham todos os conhecimentos possíveis e imaginários. A precariedade é cada vez mais gritante, não permitindo aos cidadãos e às suas famílias a possibilidade de apostaram no futuro. Concomitantemente, estamos a desprezar a mão-de-obra mais experiente e cada vez mais cedo, já que a partir dos 30 anos, e com o aparecimento dos primeiros cabelos brancos, são cada vez mais os que encontram barreiras na sua inserção e reinserção profissional.
Mas estes são apenas alguns dos grandes desafios que temos para enfrentar nas próximas décadas.

FENIKS TODAY: És também Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão. Um assunto que nos diz muito na Mundo Magazine é a Igualdade de Género. Como está o estatuto da Mulher no mundo Laboral em Portugal no momento segundo a tua opinião?

Raul: Infelizmente o estatuto da mulher continua a ser algo que terá de ser alterado e não é só no meio laboral. Mas no que a este diz respeito, é incompreensível que não exista “trabalho igual – remuneração igual” e que a mulher continue a ser penalizada, nomeadamente, por ter de assumir o seu papel de mãe. A situação é ainda mais gritante quando estamos num país cuja pirâmide etária está cada vez mais envelhecida.

Urge mudar mentalidades e valorizar o papel da mulher na sociedade portuguesa.

FENIKS TODAY: Escreves para várias revistas online, crónicas que temos o gosto de ler e seguir e que são magníficas. O teu dom para a escrita é notório. Diz-nos, como se trabalha a escrita criativa? Que conselhos darias a uma pessoa que está a começar no mundo da escrita?

Raul: Antes de responder à tua pergunta, agradeço as elogiosas palavras, mas não sei se será um dom. Eu, pelo menos, não me reconheço esse  dom. Contudo, acho que a escrita se trabalha, sobretudo, do ponto de vista da observação. Pelo menos no meu caso. E quando falo de observação não falo em relatar uma história que se tenha presenciado, mas sim da capacidade de absorver do mundo alguns dos seus gritos de agonia e relatá-los de um modo a que seja possível chegar à consciência das pessoas. Não sei se sou bem sucedido, mas é esse o objetivo.

A qualquer pessoa que queira iniciar-se na escrita deixo apenas um conselho: ouçam e vejam com o coração. Há coisas para as quais os olhos e os ouvidos de muito pouco servem.

FENIKS TODAY: Como sociólogo e com os “óculos” da sociologia, qual a tua visão dos direitos humanos e da educação para os direitos humanos em Portugal e no mundo?

Raul:  É quase inexistente. Julgo que muito há a fazer nessa matéria.
No ensino em Portugal apostamos, essencialmente, na aquisição de conhecimentos, mas esquecemo-nos da parte cívica. Não temos uma preocupação efectiva na formação de bons cidadãos, e essa preocupação é tanto mais urgente nos dias de hoje, pois estamos num tempo onde impera o individualismo, o multiculturalismo e a intolerância.

FENIKS TODAY: O que seria necessário (mecanismos, ações) para uma efetiva implementação de políticas de direitos humanos dentro das organizações e no mundo laboral?

Raul: Acima de tudo dotar os empresários e os Gestores de Recursos Humanos, de competências emocionais. É inqualificável que em nome do lucro se tratem as pessoas como objetos descartáveis, perpetrando sobre estas, os maiores abusos no que concerne à sua dignidade.
Todavia, cabe acima de tudo ao estado fiscalizar e punir fortemente todos aqueles que discriminam, assediam e abusam, nomeadamente, de mulheres, de pessoas portadoras de deficiência ou de qualquer cidadão tendo como base a sua idade, cor ou nacionalidade.

FENIKS TODAY: Estudaste também inclusão. Temos curiosidade em saber os mitos e os factos que há sobre imigração em Portugal e porque é tão difícil em alguns casos a inclusão social.

Raul: De facto, Portugal é um país tolerante, e o termo é mesmo este, porque nós toleramos, sem criar agitação social, pessoas de outras origens, mas é um mito que sejamos um pais integrador.

Para um número significativo de estrangeiros residentes em Portugal, nós “reservamos” os empregos mais precários e menos qualificados e escudamo-nos nas parcas qualificações e conhecimentos destes cidadãos.
Consequentemente, remetemos estes cidadãos para habitações precárias e situadas em bairros sociais.

Ora, a simples criação de bairro social não visa mais do que a segmentação social ao invés da integração social.

Há quem defenda que poderá existir mais integração quando criamos comunidades cujos costumes sejam comuns, mas não passa de uma falácia. O que se pretende é “encaixotar” as pessoas num local separado dos demais cidadãos, criando claramente o “nós” e o “eles”.

Depois, no contexto de miséria, procuramos, como que para justificar os maus comportamentos desses cidadãos no quadro da sociedade em geral, casos de sucesso e integração que não têm por objetivo enaltecer quem venceu na vida, mas sim apontar o dedo a todos aqueles que não conseguem libertar-se das malhas mais profundas da existência marginal.

FENIKS TODAY: Estamos a chegar ao fim da nossa entrevista, mas temos ainda 2 perguntas. A primeira é: qual a responsabilidade que sentes como profissional, amigo, marido, pai, irmão, filho etc. na sensibilização para os direitos humanos no contexto familiar, social e profissional?

Raul: A responsabilidade é total e por isso é importante que lutemos pela justiça e pela dignidade humana em todas as esferas onde nos inserimos. Não podemos viver esquecendo-nos do outro, até porque, cada um de nós é um outro.

FENIKS TODAY: A segunda pergunta é: lançaste no ano passado a tua tese de mestrado que mais do que uma tese é um tratado pedagógico sobre como não discriminar em função do corpo e de outras razões. Queres falar-nos mais disso? Penso que era importante. E onde podemos comprar este tratado?

Antes de mais, gostaria de agradecer a oportunidade que me dás para poder falar sobre algo que é tão importante, quer para mim, quer para todos aqueles que têm displasias ósseas.

De facto, e como dizes, no ano passado foi editado um livro que nasce, precisamente, fruto da investigação realizada para o mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais que concluí no ISCTE em 2014. Todavia, foram actualizados os diplomas legais e foi incluído um novo capítulo acerca da importância do trabalho que não se resume apenas à nossa subsistência.

É uma obra pioneira por ser o primeiro livro dirigido ao tema das displasias ósseas, com particular enfoque no nanismo, editado em Portugal.

As ciências sociais no nosso país não se têm debruçado muito sobre esta temática, provavelmente, por existirem poucos indivíduos no nosso país com a doença (cerca de 500 indivíduos) e pela elevada dificuldade em chegar ao contacto com os mesmos.

Esperamos, acima de tudo, que o tema do nanismo, ainda desconhecido para tantos de nós, possa ser debatido e divulgado, para que possamos ver diminuídos os casos de discriminação e de ridicularização a que as pessoas com nanismo estão sujeitas.

Acima de tudo, penso que o mais importante começou a ser feito, nomeadamente, depois do surgimento da ANDO que tem feito um trabalho extraordinário e para o qual muito tem contribuído a sua presidente Inês Alves.

O livro pode ser comprado através da minha página em www.raultome.pt ou através da In-Finita, a quem agradeço por se ter associado a esta importante MISSÃO.

FENIKS TODAY: Tens alguma mensagem final que gostarias de deixar aos nossos seguidores e leitores?

Raul: Pratiquem o bem! O amor é a única fortuna que temos capaz de se multiplicar de cada vez que a dividimos.

Obrigada Raul pela amável entrevista. Que a nossa colaboração seja muito boa e duradoura!

Entrevista realizada por Anabela Moreira associada fundadora da FENIKS ONGD e editora executiva da FENIKS TODAY. 

Publicações Relacionadas