Direitos HumanosOlga Canas

Os direitos da mãe

Entrámos já há algum tempo a falar e a perorar e a focar nos direitos das crianças que, obviamente, depois de um esquecimento, ou mesmo inexistência, de séculos mereciam alguma, bastante, atenção. Porém, como Engels nos ensinou à tese, segue-se a antítese, a prioridade no oposto daquela. Como também nos ensina Engels, e aquilo que eu agora, de forma pioneira e corajosa, tentarei defender é que precisamos de passar para o momento histórico seguinte: a síntese.

Não é fácil para qualquer mãe (ou pai!) levantar-se num ambiente de reunião de pais na escola dos filhos, depois de ter a coragem de colocar o dedo no ar, e falar daquilo a que ela tem direito. Num momento em que estamos reunidos para falar dos nossos encantadores filhinhos, objeto dileto das nossas esperanças, angústias e sonhos, é preciso muita coragem para chamar a atenção e dizer: eih, eu também sou pessoa, eu tenho a minha importância e, se vós me dais licença, eu atiro-me de cabeça no precipício da autoafirmação e digo, eu tenho direitos… Claro que a indomável mãe que possuir coragem para tal feito temerário deve estar psicologicamente bem preparada para ouvir… bem, nada. O choque dos outros ao ouvir tamanha enormidade será de tal forma silenciador que as cordas vocais da restante audiência serão congeladas. Por mais ou menos tempo, isso dependerá do percurso individual já feito no caminho da redenção que cada um deles tenha já.

Ser mãe é, desde o nascimento da fofa criatura, um relegar para segundo plano (ou terceiro, ou quarto ou quinto…) das nossas necessidades, objetivos, conveniências. Durante um período mais ou menos longo – e não vamos já fechar este assunto porque, na verdade, estamos a agora a aprender MUITO com a chamada “geração canguru”! – a mãe pensa não na primeira pessoa, mas ou na terceira pessoa do singular “ele”! ou de forma mais coletiva, na primeira pessoa do plural “nós”. A nossa existência individual – espere um pouco… a nossa existência individual, pode, por favor, elucidar o significado preciso ou prático desta expressão? E a verdade é que durante um grandioso momento – que pessoas mais velhas me dizem deixar saudades (a ver vamos, pessoas, a ver vamos!) nós deixamos de pensar primeiro em nós como indivíduo e temo-nos, apenas, como provedoras de todos os cuidados que aquela frágil criatura exige. Por vezes, a plenos pulmões.

Mas, odeio introduzir uma nota de discórdia nesta sinfonia romântica da maternidade perfeita e cor de rosinha e azulinha, a verdade é que nós, mães (e alguns sortudos pais!), também temos direitos. E vários direitos, em diversas camadas, em inúmeros contextos. Eu sei, a minha formação jurídica de base – obrigada, pais pela fortuna que investiram em propinas e livros; eu sabia que isso um dia daria jeito! -, não permite abordar estas matérias que não seja pela lente (algo riscada!) jurídica. E posso dizer, clamar se quiserdes, que nós mães, sofridas neste longo jugo social da maternidade, temos direitos. Vários direitos! Montes de direitos! Camadas e camadas de direitos. E estou a falar em camadas porque estou a descascar uma cebola em camadas… Será por isso que me apetece chorar e não por frustração de ouvir, apenas ouvir, falar de direitos quando aplicados às mães… Deixem-me voltar para a cebola, por favor, snif, snif!

A minha querida Constituição da República Portuguesa consagra algo que se chamam direitos de personalidade inalienáveis de todos os indivíduos. Direitos da personalidade são, de forma muito sumária, aqueles direitos que as pessoas têm por serem indivíduos diferentes, únicos, irrepetíveis e dignos. Aquele direito a fazer que o pode tornar mais humanos, mais feliz ou não, tornar a pessoa em causa ciente de que ele é digno de ser chamado, tratado, considerado como uma Ser Humano.

No caso da mãe (e de alguns pais! Naturalmente!!!) é o direito ao banho em paz. Ahahahahaha! Esperem, não se vão embora já! Eu prometo fazer mais sentido em breve! É verdade, a mãe tem direito a tomar banho em paz. Quando quiser e não apenas quando o bebé dorme e ela liga o recetor do monitor para bebés no máximo e coloca-o pendurado na cortina do banho para ouvir o mínimo suspiro do anjinho que dorme de barriguinha cheia, fralda seca, e roupa a cheirar a lavadinho, ali, no quarto ao lado. A mãe tem direito ao banho tranquilo, relaxado, demorado e se quiser, pode ser de imersão, com sal de frutos e velas acesas e ainda um copo de vinho equilibrado no bordo da banheira. Entendidas, colegas mamãs?

A mãe tem também direito a ir à casa de banho fazer o que ela tiver que fazer para além de tomar banho (não é preciso puxarem muito pela imaginação, pois não?) sozinha. Eu repito: sozinha! E se isso incluir fechar a porta, ou até tranca-la, acalmem-se e calem-se. O conceito supra utilizado “sozinha” inclui ainda, em todo o caso, não ouvir o insistente mãe, mãe, mããããããããe!

A mãe tem, igualmente, o direito a tomar o pequeno-almoço, o almoço ou o jantar no horário devido. Definitivamente ao mesmo tempo que o resto da família e logo após a sua confeção. Não será admitido comer a desoras, em pé, encostada à bancada da cozinha, alguma sobra que nem sequer no frigorífico está, mal mastigando a comida enquanto ouve com ouvido de tísico se a preciosa criatura não estará a encher os pulmões para gritar desalmadamente, como concretização prática deste direito.

A mãe tem ainda direito a vestir saia e colocar sapato de salto alto. Vamos deter-nos aqui neste ponto. Aquela mulher que antes de ser mãe usava roupa de moda, bem cuidada, sempre em cima de um salto alto não morreu, meus caros. Poderá eventualmente estar dormente mas, nesse caso, ainda assim será sempre uma bela adormecida. Não façam essa cara de surpresa pura, ou até de choque, quando ela, destemida, coloca uma saia com 6 ou 7 anos de idade e se equilibra, sem prática já, em cima de um salto alto. Sejam generosos e chamem-na à atenção se o baton estiver esborratado.

A mãe tem direito a ir à manicura, pedicura, cabeleireiro quantas vezes quiser. Vá, sejamos mais realistas, todas as vezes que o seu orçamento, esticado pelas necessidades da sua prole, permitir.

A mãe deve poder ir ver um filme. Não, não é um filme animado onde ela vai a acompanhar os filhotes. Não. Ir ver um filme dos que ela gosta. E isso não significa que ela tenha que assistir à versão longa do filme. Pode perfeitamente só se lembrar da abertura e dos créditos no final. Está tudo bem! O direito em causa não implica dever de assistir a todo o filme, neste caso. Ela pode ter-se deixado adormecer por uns breves instantes, apenas.

Podíamos continuar a enumeração do catálogo de direitos mas a lista é apenas e meramente ilustrativa e eu tenho que ir fazer o jantar para a cachopada. Se tiverem alguma dúvida ou necessitarem de algum esclarecimento, por favor, mandem email. Eu tenho que tomar conta dos meus maravilhosos descendentes e não sei quando, se alguma vez, voltarei a este texto!

Fiquem bem e sejam felizes!

P.S.: O texto escrito reflete necessariamente a vivência particular desta mãe que vos escreve e não deve ser, de modo algum, tomado como cartilha da idade maternal.

P.P.S.: Mando um beijo ao meu querido Professor Doutor Pinto Bronze por toda a influência que exerceu em mim. E neste texto. Entendidos entenderão!

P.P.P.S.: A autora sublinha que de cada vez que ela diz a “mãe tem direitos” se estará sempre a referir a “pais e mães”. A não ser que alguma razão ponderosa de estrita ordem fisiológica imponha outro significado.

Muito agradecida, sim?

Olga Canas

Olga Canas

Olga Canas é mãe de três meninos. Mais alguns "filhos" a long the way, acrescentariam pessoas amigas. Mas apesar da sua apetência (ou não!) para as funções maternais, ela recusa ser encaixada apenas nessa categoria. Filha de Coimbra, aí estudou, com grande orgulho, Direito. Essa ponte para o Mundo fê-la atravessar todo um universo de descobertas e, sem nunca perder a coragem, ousou partir por esses mares tantas vezes navegados e conquistar muito mais do que lhe estava destinado.
Encontrou algum lar durante algum tempo nos Países Baixos, em Macau, em França, no Brasil e no Reino Unido. E durante um inesquecível instante nas Maldivas... E regressou para o aconchego materno da sua Lusa Atenas. Foi com um filho, regressou com três! E são essas as contas que importam: três! Pelo caminho foi estudando, trabalhando e aprendendo. Voltou mais desencantada mas mais experiente para derrotar o cepticismo. Quem a conhece sabe que as suas armas são o optimismo e o sorriso!

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