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Qual o futuro que se adivinha para as mulheres no Afeganistão ?

Este país em guerra há mais de quatro décadas, é uma das regiões do mundo onde a salvaguarda dos direitos humanos menos se faz notar. As notícias que chegam são, sobretudo, aflitivas no tocante à condição feminina.

A sua localização geoestratégica afigura-se muito importante para o mundo inteiro pois faz ligação do Médio Oriente à Ásia Central e ao subcontinente indiano. Fazem fronteira consigo países geopolíticamente muito relevantes como a China e o Irão. Não esquecendo claro das ex-repúblicas soviéticas que muito interessam à Russia e, o Paquistão fonte de tantas preocupações com as suas ligações ao terrorismo Jihadista que os países fronteiriços não querem ver chegar aos seus domínios.

Do ponto de vista humanitário e também económico, o regime talibã que tomou conta do poder em 1996 foi catastrófico para o país, sendo que as maiores vítimas serão possivelmente as mulheres. Em 2001, o ex-Presidente Bush decide instaurar uma guerra contra o terror influenciado pelos acontecimentos de 11 de setembro que resultaram na  morte de 3000 civis reivindicada pela organização terrorista Al-Qaeda. Esta organização era suportada pelo regime talibã e havia provas que os seus mentores estavam escondidos nas montanhas do Afeganistão, motivo pelo qual se deu a invasão pelos Eua e de tropas da Nato em 2001. Nessa altura, a comunicação social bombardeava as suas audiências com imagens e relatos do que era a vida das mulheres sob o regime talibã: proibição de saídas na via pública sem que estivesse presente um elemento masculino da família, proibição de exercer atividade, restrição de acesso à saúde e à educação bem como a utilização forçada da burca.

Volvidos 20 anos sobre a queda do regime talibã mas com o aumento do seu poder e influência para níveis idênticos aos que se viviam antes da invasão norte-americana, estamos na eminência da saída das tropas aliadas previstas para maio do corrente ano após negociações tidas pela administração Trump e os líderes talibãs. Seria a situação perfeita se, depois de tantos anos de guerra as soluções diplomáticas prevalecessem e os conflitos terminassem. Mas a que custo? Os talibãs não abdicam da sua parcela de poder, ainda que seja partilhado com as forças governamentais. Os líderes quando questionados como serão tratadas as mulheres, fornecem  uma resposta extremamente evasiva e abrangente: as disposições relativas às mulheres serão observadas de acordo com a Sharia, o que no passado, uma interpretação brutal da mesma foi o motor para tantas violações dos direitos das mulheres.

A União Europeia enviou a Cabul Janez Lenarčič que anunciou uma ajuda humanitária ao país no valor de 32 milhões. No encontro com o Presidente afegão Ashraf Ghani e com o presidente do Conselho Superior para a Reconciliação Nacional Abdullah Abdullah insistiu na “importância da participação das mulheres na construção do futuro do Afeganistão”.

Joe Biden, recentemente e dada a escalada de violência no país deixou no ar a hipótese do acordo assinado por Trump ser revisto.

A República Islámica do Afeganistão, necessita e necessitará no futuro quer de ajuda humanitária quer de ajuda económica, seria altura dos líderes europeus e dos Eua imporem as suas exigências e só com o compromisso real e efetivo que as mulheres teriam um tratamento digno, com acesso aos direitos e liberdades fundamentais, é que essas ajudas seriam dadas. Não basta o compromisso sobre o fim dos ataques às tropas aliadas, às forças governamentais e ao fim do acolhimento de organizações terroristas jihadistas. Um país em que se verifica o empoderamento das mulheres ao nível dos seus direitos e acesso à educação é um país com mais chances de se desenvolver de forma mais democrática e que promove mais a paz, o que interessa não só à região como a toda a comunidade internacional.

Isabel Leitão

Isabel Leitão

Jurista, analista internacional. Mestre em geoestratégia e terrorismo jihadista. Doutoranda em investigação de direito, educação e desenvolvimento.

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