Direitos HumanosIsabel Leitão

Como ficou a História marcada pelos trabalhadores de todo o mundo?

A origem das celebrações de 1º de maio remonta aos protestos ocorridos em Chicago no ano de 1886 no início deste mesmo mês, em que cerca de meio milhão de trabalhadores se manifestaram nas ruas por condições melhores. Advogavam o direito a 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de lazer. Mas aquilo que seria uma manifestação pacífica acabou por se tornar num banho de sangue com polícias e civis mortos e feridos bem como a prisão e condenação à morte de presumíveis autores do protesto.

Em solidariedade com os mártires de Chicago, foi declarado o 1º de maio como o dia internacional do trabalhador em vários países, curiosamente, nos Estados Unidos esse dia é celebrado em setembro.

Mas as reivindicações vinham de longe. A nova forma de trabalhar com origem nas fábricas e nas longas horas de trabalho (em muitos locais até 16 horas diárias) surge com a revolução industrial ocorrida na Inglaterra. Com a confiscação dos terrenos aos camponeses, outra saída não havia para estes senão irem para as cidades em busca de trabalho nas fábricas.

A vida dos trabalhadores era nessa época completamente manietada pelos proprietários das mesmas. Tocava o sino para a entrada, a pausa, a saída e até para dormir…eram indivíduos privados de quaisquer liberdades e direitos. Não podiam ter tempo livre porque isso significaria terem mais tempo para conspirarem e para beberem, o que os tornaria improdutivos. Não podiam receber salários dignos porque isso significava que não teriam de trabalhar todos os dias. Esta era a visão dos empreendedores da época. Não é de espantar que, os trabalhadores acabassem por perceber que unindo-se talvez conseguissem melhores condições.

Em 1819 dá-se o massacre de Peterloo em Manchester, da mesma forma que aconteceria anos depois em Chicago, 600.000 trabalhadores juntaram-se em protesto. Perceberam que para as suas condiçoes laborais mudarem e melhorarem as suas vidas, teria de haver reforma política. E este movimento surge no sentido de apelarem para o sufrágio universal, permitindo-lhes assim poderem votar em quem defenderia os direitos dos trabalhadores. Também aqui, a morte de 18 civis e de centenas de feridos foi o preço a pagar pelas pessoas que exigiam aquilo que lhes era devido. O peso deste movimento é inolvidável, graças a estes trabalhadores, o sufrágio universal foi discutido e aceite em Inglaterra gradualmente, apesar das mulheres, terem esperado quase cem anos mais para conquistarem o direito ao voto.

A miséria, a duração do dia de trabalho , os baixo salários foram motivo de protestos em toda a Europa. As alterações tardaram em surgir mas tiveram de acontecer, fruto de quem nunca obedeceu cegamente às normas impostas pela busca do lucro sem ter em conta a dignidade dos trabalhadores que são o motor e o meio para atingir esse resultado.

Voltando a 1886, os protestos de Chicago também obtiveram repercussões tendo as 8 horas de trabalho sido instituídas em França e na Rússia poucos anos depois, tendo-se-lhes seguido outros países. Em Portugal, a situação foi mais demorada. Somente com a Constituição de 1976 foi estipulada a duração máxima da jornada de trabalho a nível nacional mas levou anos a que as 8 horas fossem legisladas com o acordo entre as associações patronais e os sindicatos.

O que a história demonstra é que a classe trabalhadora teve e tem uma força mobilizadora muito grande e fez e pode fazer muito pelo seu país e pela democracia. Em alguns continentes, como África, ainda não foi alcançado o êxito de normativas básicas como a proibição de escravidão (escravidão pela ascendência de que é exemplo o Mali), a proibição do trabalho infantil…Este é o ano em que a Onu aposta na erradicação do trabalho infantil.

E Portugal? A celebração do 1º de maio tem o peso da história e dos sacrifícios de quem sofreu para o bem de todos? Como está a classe trabalhadora no nosso país?

Atualmente, e dada a situação pandémica, a situação dos trabalhadores tem assistido a vários recuos quer com o desemprego a aumentar, a precariedade dos contratos de trabalho, os despedimentos, etc. De acordo com um estudo levado a cabo pela plataforma Fixando,  53% dos portugueses recebem em média menos 115 euros que em 2011, 57% indica que dada a desfavorável conjuntura poderão ter de emigrar.

De acordo com a Organização Internacional de Trabalho, o sistema coordenado de proteção social dará resposta aos trabalhadores quer no acesso aos cuidados de saúde, quer apoiando a segurança no emprego quer na proteção daqueles que vêm os seus rendimentos mais afetados.

Celebre-se o 1º de maio, a história e os que tombaram para que sejamos titulares de trabalho com dignidade.

Isabel Leitão

Isabel Leitão

Nascida em Angola e crescida no norte de Portugal tem a boa disposição e a sociabilidade típica de ambos os sítios. Muito jovem descobriu Ernest Hemingway e a sua paixão pela escrita adensou-se de tal forma que ainda pensou em jornalismo como licenciatura. Mas foi o Direito em Coimbra que a acolheu com a pretensão de tornar o mundo um lugar mais justo.
Fervorosa defensora dos direitos humanos, acredita que é a Educação a melhor arma para que todas as pessoas do mundo tenham uma vida digna.

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