Direitos HumanosInês Costa

Ódio Racial Asiático

Nas notícias tudo o que vemos para com as comunidades asiáticas desde que começou a pandemia da COVID-19 é um excesso de violência, em particular nos EUA. Vemos vídeos de pessoas de idade a serem empurradas e brutalmente agredidas. Vemos ataques nas redes sociais contra chineses. Vemos notícias de tiroteios em salões, na Geórgia, onde trabalham predominantemente mulheres asiáticas. Vemos estas comunidades a organizarem-se em patrulhas para se protegerem do assédio que têm sofrido no dia a dia.

Esta situação foi muito influenciada pela linguagem incendiária de Donald Trump, na altura presidente dos EUA, que normalizava expressões racistas e discriminatórias contra os ásio-americanos, como “vírus chinês” ou “kung flu”. Este tipo de conotações influencia outros a cometerem atrocidades e pronunciarem as mesmas expressões discriminatórias.

            Entre 19 de março de 2020 e 28 de fevereiro de 2021, houve 3.795 relatos de incidentes que variaram de comentários racistas a ataques violentos contra asiáticos. Enquanto que se virmos em 2019, apenas houve 3 relatos de incidentes semelhantes. Chegou-se ao ponto de a polícia americana ter que criar uma nova task force para ajudar na proteção dos ásio-americanos. O medo de ir à rua é imenso.

Muito se fala de como a pandemia é a culpada destes comportamentos, no entanto, isto não é totalmente verdade, uma vez que os sentimentos Anti-Asian não são recentes. Eles não começaram com a pandemia. Tiveram sim um grande aumento e repercussões após a pandemia, mas a verdade é que o problema existe há séculos, porém não é falado e passa despercebido como casos excecionais. Há toda uma história que vive nas sombras da memória de países que preferem ignorar e normalizar situações correntes de ódio, do que educar e consciencializar para ultrapassar uma questão de violência sistemática, perpetuada por diversos grupos. É um pouco a lógica de “se ninguém falar é porque não existe”. Como vimos, as coisas não funcionam assim.

Segundo a Vox, a discriminação anti-asiática é menorizada muito devido ao privilégio que alguns asiáticos têm em comparação com outros grupos minoritários como os negros e latinos. Por esta razão, os crimes enunciados não foram designados por crimes de ódio. No entanto, os eventos a que hoje assistimos foram o ponto de rutura para muitos que sofrem diariamente este tipo de preconceito.

            Neste artigo serão tratadas as questões de ódio contra as comunidades asiáticas, particularmente do Leste asiático, debruçando-nos especificamente sobre os acontecimentos nos EUA e a sua história com estas comunidades.

            A segregação racial foi uma grande parte da história americana com a instituição do regime do Apartheid que dividia a sociedade entre raças, sendo a raça branca aquela que tinha os melhores serviços à sua disposição e a raça negra os que eram subjugados ao resto da sociedade. Mas e as outras comunidades? A história ensina-nos que o mundo era a preto e branco, mas a América é um país de imigrantes. Onde estão os asiáticos neste sistema que tanto se ouve falar? Aliás, onde se ouviu falar de violência contra os asiáticos na América? A verdade é que o racismo neste país foi muito mais longe do que apenas dividir o país entre brancos e negros. O racismo e a discriminação racial foram incentivados no geral e, muitas vezes, de forma inconsciente, por meio de desenhos animados. Não é por acaso que muitos desenhos animados antigos foram proibidos de passar em televisão pelo seu carácter racista e xenófobo. Para este artigo em concreto, temos o exemplo de bonecos que desfiguravam a imagem do homem chinês com uma cara visivelmente amarela, um olhar violento, uma fala agressiva, mostrados como sujos e como uma ameaça ao país. Esta era uma forma inconsciente de incutir os estereótipos logo desde pequenos.

            Se voltarmos um pouco no tempo podemos ver o termo “Yellow Peril” ou “Yellow Terror”, uma metáfora racista, utilizada no século XIX, para descrever os imigrantes do Leste asiático como uma ameaça existencial ao mundo ocidental. Posto isto, a integração destes imigrantes que vieram desesperados à procura de trabalho foi muito conturbada, não resultando em bons encontros com a população branca. Estes foram rapidamente acusados de roubar postos de trabalho, ainda que tenham dado uma contribuição muito grande em termos da criação de infraestruturas à América, das quais esta ainda hoje usufrui. Em 1882, foi publicado o primeiro ato de exclusão dos chineses Democratic Chinese Exclusion Bill, baseado única e exclusivamente em raça, podendo-se ler nele “the White Man is on Top”. Esta legislação impedia a imigração de trabalhadores chineses para a América. Por outras palavras, os chineses estavam desqualificados de entrarem nos EUA apenas por ser quem eram.

Isto não parou por aqui, a propaganda dos democratas foi bastante reforçada em visões xenófobas com posters de chineses a comerem ratos, reforçando a visão de sujos e posters de chineses com várias mãos a realizar vários trabalhos, reforçando a ideia de serem trabalhadores escravizados. O resultado foi uma mob violenta em 21 de outubro de 1880, em Chinatown, atacando todos os chineses trabalhadores que estivessem à vista. Em 1885, em Seatle, o sentimento Anti-Asian levou a que os riots durassem 4 meses até tirarem os chineses da cidade. Nesse mesmo ano, 28 mineiros chineses em Wyoming foram massacrados por trabalhadores brancos. E estes são apenas três exemplos de 158 riots dos anos 80. Isto levou a que o Democratic Chinese Exclusion Bill,que tinha o intuito de durar 10 anos, fosse renovado e reforçado em 1892 com o Geary Act e tornando-se permanente em 1902. Apenas em 1965 foram eliminadas por completo as restrições de imigração especificas nas raças, pelo Immigration and Nationality Act of 1965.

            Ainda em 1900, quando começou a peste bubónica na Chinatown de S. Francisco, a resposta dos governos americanos foi queimar 41 edifícios chineses deste espaço, forçando os residentes a fazer quarentena em campos de detenção. Isto aconteceu após Wong Chut King, morador chinês de Chinatown, ter sido infetado com a doença. O desfecho deu-se quando os governadores foram inspecionar este espaço. Como eram a favor de manter os chineses separados dos americanos por os considerarem uma ameaça constante à saúde pública, optaram por incendiar os edifícios. Após 6 anos, o Conselho da Cidade para afastar a culpa do acontecimento, afirmou que fora um homem chinês que tinha alegadamente contraído lepra e decidido incendiar a sua própria cidade.

Não esqueçamos também que comunidades asiáticas não se refere apenas a cidadãos provenientes da China. A xenofobia é uma constante na história americana e este pequeno estudo direcionado para as comunidades asiáticas reflete esta situação. Reflitamos sobre o ataque exacerbado por mobs em Watsonville, durante 1930, contra as comunidades filipinas, denegridas por serem sujas e incivilizadas. Isto resultou no assassinato de Fermin Tobera de 22 anos, baleado por um grupo de homens brancos pertencentes às mobs. Um símbolo da comunidade filipina do qual a grande maioria nunca ouviu falar. Ninguém foi preso ou responsabilizado pelo seu assassinato.

Reflitamos sobre o ódio perpetuado contra os muçulmanos, muitos deles do sul da Ásia, em particular após o ataque terrorista às Torres Gémeas. Estes foram ameaçados, mortos, agredidos sob o estereótipo de que “todos os muçulmanos são terroristas e vêm destruir a América”. Tem-se como exemplo o indiano Balbir Singh Sodhi, assassinado no posto de gasolina onde trabalhava, logo após o ataque terrorista. Pode-se ter também como exemplo o assassinato de Vasudev Patel e Waqar Hasan, o primeiro enquanto trabalhava na sua loja de conveniência e o segundo enquanto grelhava hambúrgueres. Ambos no Texas. E, ainda que os incidentes tenham diminuído até hoje, eles nunca voltaram ao mesmo que eram antes do 9/11. Após 20 anos, o estereótipo e o ódio contra alguém cuja semelhança física se associe aos muçulmanos com barbas longas, pele média escura e vestes culturais (turbinas, hijabs, burkas) permanece. O próprio, agora ex-presidente, Donald Trump impôs um impedimento contra a entrada de pessoas provindas de sete países muçulmanos na América. Após o discurso de Trump, a polícia reportou que houve um aumento de 87% de crimes de ódio contra muçulmanos.

Reflitamos um pouco quando após o ataque do Pearl Harbor, os residentes japoneses residentes na América foram detidos em poucos horas por uma situação que nada lhes dizia respeito. Poucos meses depois, foram levados para campos de concentração, a sua grande maioria japoneses residentes na América já nas suas 2ª ou 3ª gerações, portanto 100% cidadãos americanos. Para os americanos, o afastamento não foi lealdade suficiente para serem considerados iguais a si, tendo estes sido enviados para servir na Segunda Guerra Mundial. Ou seja, estes homens lutaram por um país que tentava excluir a sua presença no mesmo e ainda brilharam na guerra com a sua agilidade técnica.

Após a Segunda Guerra Mundial, as questões raciais alteraram-se. No entanto, não de uma forma igualitária. Vincent Chin, um homem ásio-americano, mostrou ao mundo que a justiça discrimina. Chin foi assassinado em 1982 por dois homens brancos, Charles Tines e Richard Lee, no Michigan. Tal ocorreu numa altura em que muitos negócios japoneses de empresas de carros estavam a fazer muito sucesso e, por isso, muitas pessoas estavam a culpar os japoneses pela perda de trabalhos de muitos americanos. Estes dois homens que se encontravam no club de strip onde Chin, de ascendência chinesa, comemorava a sua despedida de solteiro confundiram-no por um homem japonês. Seguiram-no até ao McDonald’s mais próximo e agrediram-no brutalmente com um taco de basebol, até este acabar por falecer no meio da rua. Estes dois homens pagaram 3.000 dólares pelo crime cometido, não tendo de cumprir tempo de prisão. As palavras proferidas pelo juiz foram “estes não são o tipo de homens que se manda para a prisão”.

Portanto, este homem morreu por ter sido confundido como japonês, mas a verdade é que não importava o facto de ele ser chinês, pois ambos sofriam o mesmo tipo de tratamento. Este foi o momento de viragem para as comunidades ásio-americanas que protestaram contra a decisão e chegaram à conclusão que era preciso um movimento que unisse todos os povos asiáticos que sofriam abusos raciais nos EUA.

Estas comunidades inspiraram-se muito no ativismo negro do civil rights movement chefiado por Martin Luther King. Na verdade, foram os ativistas negros, como Jesse Jacksen, que pagaram jornais para pressionar a aceitação de refugiados indochineses, trazendo atenção e exigindo justiça pela morte de Vincent Chin. Foi uma união racial solidária que criou benefícios gerais. Desta luta resultaram iguais oportunidades de educação e a criação de programas étnicos.

Ainda que tenha havido problemas entre as duas comunidades, vemo-las hoje nas manifestações de Black Lives Matter, juntas, a lutarem contra um sistema que as deprecia e cria injustiças para ambas há séculos. Haver esta união onde as pessoas põem as suas diferenças de parte e se solidarizam com uma causa que tem uma amplitude e longo historial como esta é um bom começo. É preciso continuar a falar e trazer atenção para um problema que não é novo e pode ser ultrapassado. É preciso reconhecer que estas metodologias institucionais continuam a suceder e marginalizar diversos grupos, seja para com as minorias asiáticas vistas como sujas, para com as minorias negras vistas como violentas ou para com as minorias muçulmanas vistas como terroristas. É preciso pôr um fim à situação e esse fim começa com a reeducação. Afastarmo-nos das ideologias e argumentações racistas que nos são incutidas direta ou indiretamente.

Não conseguimos voltar atrás no tempo e alterar as situações expostas ao longo do texto, mas conseguimos melhorar. Para isso, temos que continuar a falar e trazer consciência e atenção à violência e aos extremos que já se vivenciaram. É tempo de colocar um ponto final e criar um sistema justo e igualitário para todos.

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