Direitos HumanosSara Francisco

Era uma vez o Luís e a Luísa- a 227€ de distância

-Os Direitos das Mulheres são Direitos Humanos

Estava aqui a reflectir, enquanto lia um artigo sobre a “Candidata Perfeita”, a médica que se vai candidatar a um cargo municipal na Arábia Saudita, que nunca me senti menos por ser mulher.

-Menos capaz

-Menos dotada

-Menos estruturada…

Eventualmente, já me aconteceu ser assolada por estes sentimentos, mas nunca foram motivados pelo facto de ser mulher. Mesmo não sabendo de onde vieram, sei que não vieram do facto de ser mulher. E essa certeza é tão importante para mim quanto um Domingo de sol. É, é mesmo…é que enquanto eu souber disso, o mundo e a sociedade, tendencialmente, misógina em que (ainda) vivemos, não me poderá convencer do contrário.

Convido-vos a todas a fazer o mesmo exercício e a pensarem se há algo que realmente não sejam capazes de ser/ fazer pelo simples facto de terem nascido mulheres…depois levantem-se e respirem fundo, que o mundo é vosso!

A verdade é que aquilo que parece ser um raciocínio lógico digno de 2+2, ainda não tem um integral acolhimento e aplicação na estrutura conjectural dos sistemas e, nem mesmo, na letra da lei.

Relembro que só em 2018 é que foi aprovada a primeira lei da igualdade salarial e que, nesse marco temporal, as profissionais do sexo feminino recebiam em média menos 227€/mensais que os colegas do sexo masculino- refiro-me a salário diferente para trabalho igual.

Relembro que, em 2020, e apelando às estatísticas, as mulheres continuavam menos representadas nos postos de decisão das empresas e nos cargos de poder político.

Relembro que, actualmente, as mulheres continuam a constituir a esmagadora maioria das vítimas de violência doméstica, o terceiro tipo de crime mais denunciado em Portugal.

Recentemente, ministrei uma acção de formação de técnico/a de apoio à vítima a um grupo que desenvolve, diariamente, um trabalho multidisciplinar junto das vítimas de crime( com especial destaque para as do sexo feminino) e que aplica um conjunto de aptidões, quer técnicas, quer sociais, quer humanas no exercício das suas funções.

 Pois bem, o lapso temporal dedicado à partilha de conhecimentos e de experiências no âmbito deste percurso foi idóneo para percepcionar que existe um longo e cuidadoso caminho a ser percorrido no que diz respeito à igualdade de género e ao combate à discriminação da mulher em amplos contextos, como sendo o social e o laboral.

No entanto, e porque nem tudo é mau, têm surgido diversos diplomas, alguns deles com carácter vinculativo, que prevêem os Direitos das Mulheres e que os encaram como Direitos Humanos, dispondo de uma panóplia de medidas para diminuir a amplitude dos danos provocados ao longo dos tempos na esfera pessoal, patrimonial e profissional do género feminino.

Entre elas, destaco a Plataforma de Acção de Pequim e a Convenção de Istambul, que intervêm, não só, ao nível da prevenção, mas também da protecção daquele que é tido, não raras vezes, como sendo o sexo fraco…mas suficientemente forte para suportar tamanhas crueldades.

Os Direitos das Mulheres são Direitos Humanos!

Sara Francisco

Nasceu em Lamego no dia de ano novo, e, talvez por isso, seja apreciadora do recomeço e se considere, também, uma Fénix/Feniks.
É de 93, tendo sido esse também o ano em que nasceu Philadelphia, um filme que retrata a violação dos direitos humanos, nas suas variadas formas, e que a levou a decidir que iria estudar Direito.
Fê-lo, anos mais tarde, na Universidade do Minho e tem Braga como a sua cidade do coração. Não fosse ela uma apreciadora das paisagens magníficas e do vinho do seu Douro e quase se considerava filha de Bracara Augusta.
Traz consigo um ímpeto que a leva a fazer coisas diversificadas e a ter em mente, a cada dia, um novo projecto. Procura sentir que contribui, de alguma forma, para algo maior, tendo na parte social do direito um grande interesse, nomeadamente, no Direito de Menores.
É jurista, advogada, formadora, técnica de apoio à vítima e nas horas vagas perde-se facilmente a captar paisagens através da lente, a ouvir um clássico do rock e a explorar as artes, vendo na escrita a sua predilecta por ser a que lhe permite ir mais além, agitar mentes, colocar questões, abanar o conformismo.
Apreciadora dos meandros da mente humana e de uma boa conversa sobre as coisas do mundo (como lhes chama, frequentemente) costuma dizer que só ainda não criou heterónimos porque não tem tempo!

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