Direitos HumanosInês Costa

Síria: as mulheres Yazidi

Os Yazidis são uma minoria étnico-religiosa historicamente perseguida no Médio Oriente. Esta etnia localiza-se no Iraque, Síria e Turquia, porém a maioria concentra-se mais concretamente no Monte Sinjar no Norte do Iraque.

Os Yazidis foram no dia 3 de agosto de 2014 atacados pelos terroristas da ISIS (Estado Islâmico) com o objetivo de dizimar esta etnia. A ISIS considera-os como adoradores do diabo, uma vez que um dos mais importantes espíritos que os Yazidis respeitam é o anjo pavão, também conhecido por Tamusi Malak ou Shaytan, que no Alcorão significa Satanás. Este ataque resultou em mais de nove mil mortos, sequestrados e milhares de mulheres e crianças cujo destino foi a escravatura sexual. Houve ainda cerca de dez mil Yazidis que conseguiram refugiar-se nas montanhas de Sinjar, porém muitos acabaram por morrer de fome, sede e exaustão.

As mulheres desta minoria sofreram o que foi considerado pelas Nações Unidas um genocídio. Estas foram forçadas a casar com os homens da ISIS para que se convertessem ao islamismo ou a se tornarem escravas sexuais. Há relatos, por parte de sobreviventes, que mencionam que muitas mulheres foram queimadas vivas por se recusarem a converter e a casar com estes homens. Entre estas constavam crianças, muitas das quais não sobreviveram devido aos inúmeros abusos sexuais que sofreram. O grupo terrorista chegou a publicar uma tabela de preços sobre cada uma destas, cujas idades variavam entre um e nove anos de idade. Algumas eram vendidas em troca de maços de tabaco.

Havia todo um sistema organizado onde separavam as mulheres mais novas, das casadas e não casadas e dos homens. Os homens eram obrigados a converter-se ao islamismo, caso contrário seriam mortos. As mulheres, como dito anteriormente, eram oferecidas como prémio ou compradas por homens da ISIS, fosse para serem suas noivas ou para sua diversão, como autênticos objetos. Quando o genocídio começou, em apenas 1 hora foram mortos 312 homens. As mulheres mais jovens foram encaminhadas para a escravidão sexual. Portanto, o destino dos homens é quase sempre a morte, à exceção dos mais novos que vão para os campos da ISIS treinar para prosseguirem o exército terrorista.

Numa entrevista com uma sobrevivente, esta contou que quem a raptou justificou o seu ato com uma carta e disse: “Isto mostra que qualquer mulher capturada se torna muçulmana se dez combatentes do ISIS [Estado Islâmico] a violarem. Havia uma bandeira do ISIS e uma imagem de Abu Bakr Al Baghdadi (o líder). Os soldados do ISIS disseram-nos que isto é uma regra de Abu Bakr al-Baghdadi e nós temos que o fazer”.

Posto isto, é visível que os Yazidis viveram um visível genocídio ao ponto de que, atualmente, estes são uma parcela mínima no Médio Oriente e podem ser eventualmente extintos.

A questão que se coloca é: porquê os Yazidis? Já sabemos que uma das principais razões consiste nas diferenças culturais e religiosas, porém existe mais diversidade religiosa no Médio Oriente, por isso porquê os Yazidis?  

Desde já, esta situação decorreu entre 2014 e 2017, quando a ISIS controlava grandes partes da Síria e do Noroeste do Iraque, uma área com oito milhões de pessoas. A população Yazidi encontrava-se na área com maior atuação do grupo terrorista.

Segundo o relatório da ONU de 2016, a ISIS considera os Yazidis como “uma minoria pagã cuja existência deve ser questionada pelos muçulmanos” e defende que as mulheres Yazidis “devem ser escravizadas como despojos de guerra”. Por tal razão, estas pessoas foram torturadas das piores formas e as que sobreviveram viveram aterrorizadas por este grupo terrorista que ignora por completo a existência das mulheres como algo mais do que um corpo reprodutor.

Bitar explica-nos a razão das violações constantes a esta etnia, dizendo que “Na cultura Yazidi, o patriarca é forte e a honra é um grande componente dele, e a ISIS está bem ciente disso (como é o caso da maioria das culturas do Oriente Médio). Assim, quando “desonram” “suas” (dos homens Yazidi) mulheres por violação sexual, as estruturas patriarcais da cultura Yazidi são interrompidas, e os membros da família masculina de mulheres e meninas Yazidi são humilhados. O controlo das mulheres é um sinal de sucesso masculino afinal”. Ou seja, a violação é uma arma de guerra utilizada pela ISIS não só para espalhar o medo, como também para dominar os Yazidis.

Agora, as mulheres Yazidi lutam por limpar a imagem que os media lhes concedeu como vítimas indefesas e psicologicamente traumatizadas pelas situações que vivenciaram. Foi visível, em inúmeras entrevistas feitas a mulheres sobreviventes às atrocidades da ISIS, que se fazia questão de reviver o trauma a bem do jornalismo sensacionalista. No entanto, estas mulheres são mais que tudo um símbolo de guerra, rebelião e mudança. Estas mulheres uniram-se, armaram-se e agora mobilizam-se no seu próprio exército como unidades de resistência – YPJ: Unidade de Defesa das Mulheres – contra o Estado Islâmico, ao lado do partido PKK de Abdullah Öçalan. Uma das jovens combatentes explicou que “Pela primeira vez na nossa história, pegámos em armas, porque, com o último massacre, percebemos que ninguém nos irá proteger; temos que ser nós a fazê-lo”.

Para além das questões de segurança, elas deixaram claro que lutam pela sua voz como mulheres e pela comunidade no geral. Elas querem mostrar que podem ser independentes e tão boas no trabalho militar (ou outro qualquer) quanto os homens. Não seguem os padrões impostos pela sociedade e pretendem conquistar a autonomia da mulher. Um facto interessante é a escolha de muitas destas mulheres em não quererem nem casar nem ter filhos, ou seja, estão a desconstruir o papel da mulher no Médio Oriente, que até então seria de se prepararem para serem mães e esposas após a aprovação da figura masculina. Além disso, há ainda um outro fator positivo trazido pela existência de mulheres no exército, na qual há um maior medo por parte dos homens da ISIS de serem mortos por mulheres. Isto porque, os fundamentalistas islâmicos acreditam que se forem mortos por mulheres não vão para o paraíso onde esperavam ser premiados com 72 virgens.

Estas mulheres passaram de ser donas de casa, cujo destino era casar e criar família, para guerreiras e símbolo de resistência. Assim, fizeram história quando a 29 de julho deixam de autorizar que as famílias intervenham nas questões profissionais e fundam o Conselho Autónomo de Mulheres de Sinjar, prometendo vingar o massacre que as mesmas sofreram às mãos da ISIS. Elas querem ir mais longe do que apenas “recomprar” as mulheres raptadas, querem também ajudá-las a autodefender-se física e psicologicamente contra todos os tipos de violência. Do enorme sucesso alcançado no campo militar, que desmistificou a conceção da mulher como ser inferior, as mulheres chegaram também ao campo político e pretendem pôr fim a estas construções sociais sobre o feminino.

A melhor forma de refletir sobre a luta desta etnia é quando a atitude das crianças passa de “pobrezinhos” a mendigar ajuda, para empoderados e de punhos levantados a cantar “Viva a resistência de Sinjar! Viva o PKK!”. A ISIS pode ter destruído muitas vidas, mas estes sinais são o marco da vitória. A cultura permaneceu, a sua história avançou, a comunidade uniu-se ainda mais e, desta vez, com uma democracia de base e com um sistema melhor estruturado, estão preparados para combater, sem medo, a fim de evitar que a história se repita.

Inês Costa

É estudante universitária de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa. É lisboeta de nascença, mas sempre manteve as suas conexões à família que vive longe e à aldeia perto de Leiria que a viu crescer. Teve um caminho atribulado, iniciou os seus estudos a 300 km de casa, no Algarve, em Línguas, Literatura e Cultura, mas rapidamente compreendeu que não era o que pretendia seguir. Assim, lançou-se numa segunda aventura para ainda mais longe, a quase 500 km de casa, onde chegou a Bragança e por lá esteve um ano a estudar Línguas para Relações Internacionais.
Apesar destas constantes mudanças e incertezas, algo do qual nunca duvidou foi o seu gosto pelas línguas. É apaixonada por línguas desde o inglês até ao chinês. Considera incrível a capacidade de comunicar com pessoas de diferentes contextos. Deste modo, encontra-se a acabar os seus níveis de inglês, alemão, a iniciar chinês e, eventualmente, irá iniciar russo.
Além do seu gosto por línguas estrangeiras, a sua curiosidade não acaba aqui. É igualmente interessada em temáticas das Relações Internacionais, em particular pela área dos Direitos humanos conjugada com a segurança internacional. Por esta razão, decidiu voltar à sua cidade, Lisboa, e por lá se encontra a terminar os seus estudos em Relações Internacionais.

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